O Serrano continua empenhado em conhecer o mundo. Existe uma nova classe dentro da minha geração que tenho vindo a reparar que se caracteriza pelo seguinte: Gastam fortunas a viajar, quase sempre para destinos de praia, comida e bebida, sempre no estrangeiro mas não conhecem nada! Não conhecem as cidades onde se fez a história do mundo e pior ainda, muitos não conhecem sequer Portugal!
Esta semana, meti uns dias de férias e decidi que iria conhecer Lisboa. É verdade que já lá tinha ido diversas vezes e por vezes por vários dias, mas nunca em turismo. Fui munido do meu guia habitual (Guia American Express TOP 10 LISBOA) tal como se fosse para outra capital europeia. Preparei a viagem, marquei o hotel perto do centro e de uma estação de metro, preparei o meu kit de turista e viajei até à capital do nosso cantinho.
Fiquei alojado a 50 metros da Praça de D. Pedro IV (mais conhecida por praça do Rossio) e portanto, mesmo no coração da cidade. Gostei do que vi, gostei das ruelas de Alfama, da noite no Bairro Alto, da animação no Rossio, das vistas do Castelo de São Jorge e da turística zona de Belém. É sem dúvida uma cidade com história que vale a pena visitar e tive até a oportunidade de seguir os diversos (e polémicos) eventos das comemorações do centenário da república. Na minha opinião, o que é polémico não é só o dinheiro gasto, é o facto de 95% ter sido gasto entre o Rossio e o Terreiro do Paço e os outros 5% no resto do país. Mas isto é algo que se repete em tudo o resto…
Como Serrano que sou, não estou naturalmente adaptado a uma grande cidade. É certo que já viajei até às grandes capitais europeias, é verdade que em todas é necessário estar atento, planear devidamente o dia e acima de tudo – adaptarmo-nos. Em Roma não adianta esperar que os carros parem na passadeira, “uma vez em Roma sê Romano”, temos de nos meter à frente dos carros que eles (quase todos…) param. Em Paris não se tenta perceber o que se passa com os torniquetes do metro, se eles não abrirem é fazer como os parisienses – passar por baixo, por cima, por entre, etc. Já em Londres é fazer como deve ser ou como estiver escrito à nossa frente. Se algo nos parece estar errado, fora do sítio ou mal pensado, o mais provável é sermos nós que não estamos a perceber.
Eu não me consegui adaptar a Lisboa… Infelizmente, pensei que ía para a nossa capital e afinal devo ter ido parar a Marrocos… Segue o cronograma dos acontecimentos:
Sábado: Durante o dia conheci a baixa. De noite no Bairro Alto, entre um jantar num restaurante e uma caipirinha no Portas Largas, tive de mudar de trajecto devido a sentir que estava a entrar em zonas onde não devia, para logo de seguida ter de dizer a dois indivíduos que não queria a droga que estavam a querer enfiar-me nas calças. Enquanto estava sentado a jantar ainda tive oportunidade de ver outros jovens de casacas de cabedal, com armas à cintura passarem de forma apressada ao meu lado e fazerem sinais uns para os outros enquanto desapareciam. Em toda essa noite, no Bairro Alto, vi um polícia. Mas pedintes vi muitos…
Domingo: Visitei o Fundação Calouste Gulbenkian e na vinda, na estação de Metro da Praça de Espanha fui recebido por meia dúzia de drogaditos que fizeram o favor de me guardar a mala da máquina fotográfica com todos os acessórios e as fotos que já tinha tirado. Só é pena que até agora ainda não a devolveram. Questionei o senhor que guarda a estação que simpaticamente encolheu os ombros e disse-me que tive azar com a estação… enquanto dizia isto, os drogaditos passavam por cima, por baixo e por entre os torniquetes mesmo à frente do guarda que nada fazia (seriam parisienses?). Disse-me que eles têm passes sociais pagos pelo estado, mas vendem-nos para fazer dinheiro para o vício e depois têm de partir os torniquetes todos para entrar nas estações. Basicamente este senhor não guarda, não vigia, não alerta, não ajuda, não faz nada mas está lá um como ele 24h por dia em todas as estações. Depois o Metro dá prejuízo…
Segunda-feira: Estava a almoçar numa esplanada quando vejo dois indivíduos a correr. Passado um minuto chega um empregado de mesa que vinha a perseguir os dois rapazes por eles terem fugido sem pagar a conta. Seguiram os 3 para o Bairro Alto e eu fiquei a pensar: O que raio é que o empregado de mesa vai fazer se por um acaso muito pouco provável conseguir encontrar os outros dois? Vai bater-lhes com o bolsa dos trocos e amarrá-los com o avental? Claro que passados 5 minutos o empregado regressou sozinho, cansado e sem o dinheiro. Se a ASAE visse aquele empregado todo suado ainda o multa a ele e ao patrão…
Terça-feira: Após um agradável jantar, estava a pensar ir até ao Terreiro do Paço onde estava a iniciar um novo espectáculo multimédia sobre a República. Por azar, estava numa rua paralela à Rua Augusta (mais iluminada e movimentada) e caminhei descontraidamente em direcção ao Tejo. Passamos por uns indivíduos numa esquina que prontamente fizeram sinal um ao outro e vieram atrás de nós. Como eu sou da Serra mas não acredito que a intenção deles fosse guardar-me, agarrei a mulher pela mão e aceleramos o passo até à primeira esquina em direcção à Rua Augusta. Aqui estava uma esplanada com algumas pessoas e os nossos amigos pararam e voltaram para trás. Seguimos o nosso passeio e eis que em plena Rua Augusto temos outra vez outros indivíduos que por coincidência paravam quando nós fazíamos de conta que estavamos a ver uma montra e continuam o passeio deles exactamente quando nós seguíamos caminho. Não tive outra alternativa senão seguir para o Rossio onde tem mais movimento. Em todas as cidades que estive e em todos os países, nunca senti medo! Em Lisboa ou tive muito azar ou é mesmo insuportável lá viver. Nesta noite, não vi um único polícia na rua! Apenas passou por nós um carro patrulha. Consegui percorrer de noite a praça do Rossio de uma ponta à outra e não ver um polícia! Quem já esteve por exemplo em Londres reparou de certeza que onde se juntam pessoas tem sempre polícia. Vi de facto muitos polícias em Belém, na via mesmo em frente aos Jerónimos estavam dois carros patrulha a fazer operações Stop e logo de seguida outro carro com radar a passar multas a quem ía para o trabalho a 55Km/h. Para esta trabalho não faltam polícias…
Quarta-feira: Fui ao Oceanário e foi giro…
Termino dizendo que Lisboa é linda, tem uma luz inigualável, cheira a história e se algum dia alguém conseguir meter ordem naquilo, ainda lá hei-de voltar!
O Serrano
P.S. – Queria meter mais e melhores fotos mas roubaram-mas… e as que tenho, tal como esta, foi tirada com o telemóvel.