Vemos por aí capas de revistas com títulos pomposos: “Como sobreviver a 2011”, “Como ultrapassar a crise”…
Se querem um conselho, ninguém mo pediu mas como é de borla e estamos em tempo de crise, eu dou na mesma para quem quiser aproveitar. Poupem o dinheiro da revista e sentem-se ao lado dos vossos pais, ou dos avós e perguntem-lhes como é que era à 30 anos. Não necessitam de revistas, nem gestores financeiros, nem de curandeiros, basta perguntar a quem à 30 anos queria comprar casa e enfrentava taxas de juros de 30% como é que eles conseguiram ultrapassar essa situação. A situação actual do país não está nada má. Acreditem que não. Está ainda longe de estar alinhada pela realidade. Ainda vai ter de piorar. Os spreds dos empréstimos bancários dispararam para valores a que os portugueses não estavam habituados. As taxas de juro estão a aumentar à 20 meses consecutivos mas continuam extremamente baixas. O BCE esta semana voltou a manter a taxa directora no mínimo histórico mas mais mês menos mês vai ter de aumentar. O problema não é 2011 como dizem as revistas. O problema é para vários anos. O problema está no modelo que se enraizou nas famílias portuguesas. Para casar é preciso ter casa, para ter um filho é preciso ter uma mobília e depois do puto nascer é preciso trocar o carro por uma carrinha. Continuo sem perceber como é que o meu pai conseguia levar mulher, dois filhos e muitas vezes a minha avó para todo o lado num Renault 5! Isto no tempo em que ainda se levava o belo farnel para a viagem com os tachos embrulhados em jornal! Agora os casais da minha idade não fazem nada disso porque é piroso, quando lá estivermos comemos na marisqueira.
O crédito bonificado, teve imensos efeitos positivos no desemprego, no desenvolvimento das empresas e do sistema bancário. Fez Portugal avançar e não se chegou a criar uma bolha imobiliária como em Espanha. O único problema que fez desmoronar todo este aparentemente bem montado esquema foi que ninguém explicou aos portugueses as implicações que este apoio tinha. Esta medida acabou por ser uma das grandes responsáveis pela disparatada corrida ao crédito nos últimos anos, apenas serviu para matar a tiro a consciência dos portugueses, para fazer disparar a construção civil com uma inflação de preços irrealista e para abrir a caixa de Pandora dos créditos bancários em Portugal. Os portugueses não perceberam que a ideia era ajudar as famílias a comprar uma casa adequada, no início da vida, e com isso, permitir-lhes fazer uma coisa que a geração anterior tinha mais dificuldades em fazer, pagar a casa e ao mesmo tempo constituir uma poupança para o futuro. O problema é que essas poupanças não apareceram e quando o estado fecha a torneira as pessoas desatam a insultar os bancos. Curioso, quando o dinheiro não custava nada os bancos eram um espectáculo, agora são o diabo! É óbvio que os bancos não andam cá para perder dinheiro, mas dizer que andaram a enganar os portugueses é uma forma muito nossa de nos desresponsabilizar-nos. Fiz um teste recentemente com alguns amigos. Perguntei quanto pagavam de prestação da casa neste momento. Todos sabem o valor. Perguntei desse valor, quanto era para juros e quando era para amortização de dívida. Quase nenhum sabe ao certo. A verdade é que uma boa parte de nós andamos cá por ver andar os outros. Compramos carros a gasóleo porque toda a gente sabe que compensa. Compramos casa em vez de arrendar porque toda a gente sabe que compensa. E agora não vamos de férias para o Algarve porque toda a gente sabe que não compensa, mais vale ir para fora. Quem fez estas contas? Ninguém sabe. E o pior ainda, é que ninguém as faz ou porque não sabe, ou porque (e esta para mim é a principal razão), não quer que alguma razão lógica e matemática se atravesse à frente do seu sonho.
É preciso abrir os olhos e deixar de acreditar só no que ouvimos no cabeleireiro. Sabem qual é a grande vantagem de acharmos que somos atrasados e que existem outros países mais avançados do que o nosso? É podermos ver como esses países vivem e os erros que cometeram. Como nós estamos atrás podemos evitar os mesmos erros e aprender com a experiência deles.
Todos nós dizemos que no Luxemburgo é que se vive bem. Mas o que teimamos em esquecer é que 90% dos habitantes não conseguem comprar casa devido ao preço absurdo da habitação. Por isso arrendam toda a vida e sabem que mais? Vivem muito bem!
Todos nós dizemos que na Inglaterra é que se vive bem. Mas o que teimamos em esquecer é que em Londres, uma das cidades mais ricas do mundo, 50% da população não tem carro próprio.
Porque será que os bancos neste último ano, deixaram de publicitar crédito à habitação, e passaram a publicitar de forma até agressiva (no bom sentido da palavra) os depósitos de poupança. Neste momento querem aforradores, e não gastadores e consumidores compulsivos. Teremos que primeiro poupar, para depois se poder gastar. Voltar ao lema de à 3 ou 4 décadas. O bem bom já se acabou. Fazer flores com o dinheiro dos outros, já foi chão que deu uvas. É pena que ainda haja muito Português que ainda não se deu conta desta situação. Ainda vivem no tempo da Alice no País das Maravilhas, ou no tempo em que o mundo era cor-de-rosa.
O Bom ou O Mau
(depende da interpretação de cada um do que acabou de ler)
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