
Comprei este filme na semana passada e aproveitei para rever uma história que recordava com agrado mas que apenas tinha visto uma única vez quando estreou tinha eu 14 anos. Escusado será dizer que todo o filme ganhou um novo significado…
Forrest Gump (1994) é um filme sobre o sentido da vida. Estamos perante um filme que é simultaneamente forte em estilo e conteúdo. Como qualquer grande filme, não pode ser julgado apenas pelos aspectos técnicos ou artísticos, mas pela profundidade da mensagem. Enquanto exalta a necessidade de experienciar a vida ao máximo, fá-lo no contexto de uma visão global que rejeita um sentido maior para a vida em favor de uma confusa mistura de acasos, acções e destinos desconhecidos e descontrolados. Trata-se de um drama existencial para o homem comum.
A história baseada no livro de Winstom Groom, explora a saga de vida de um homem simples, Forrest Gump, que com um QI no limiar do vegetatismo, vai alterar o mundo durante a sua vida sem sequer ter percepção disso.
Forrest encontra-se com presidentes dos Estados Unidos da América, influencia os jovens Elvis Presley e John Lennon. Está em eventos marcantes do século XX como a guerra do Vietname, o arranque da Apple e o rebentar do escândalo de Watergate. Apesar de tudo isto, ele nunca se apercebe do impacto que teve no mundo, permanece um homem simples com um simples amor pela vida e um simples desejo de ficar com a miúda dos seus sonhos Jenny.
Infelizmente para Forrester, Jenny teve uma infância de abusos o que a levou a uma vida de auto-destruição baseada em relações com homem que a mal tratam, defesa de causas da moda em detrimento das convicções pessoais e uso de drogas. As vidas de ambos seguem caminhos diferentes só para se reencontrarem anos depois periodicamente, nunca se conseguindo compatibilizar de forma permanente até ao final do filme.
Ao longo de toda história, interagem com Forrest várias pessoas sedentas de realizar os próprios sonhos e ambições, sempre na busca de algo maior que elas próprias que lhes dê um significado à vida. Desde o Tenente Dan que deseja seguir a linha da família de heróis de guerra falecidos, passando pelo colega de armas Bubba que sonha iniciar um negócio na pesca de marisco e terminando no sonho de Jenny de tornar-se famosa e poder tocar a vida das pessoas.
Não por acaso, nenhum deles consegue realizar os seus sonhos, mas também nenhum deles entra em desespero ou acha que a vida ficou sem significado. Todos encontram a vida para além dos sonhos por alcançar. Entretanto, o nosso simples herói não tem sequer o conceito de que haverá algo maior do que a sua simples existência. Ele atinge o tão badalado sucesso e concretização que todos anseiam, mas nem tão pouco o reconhece nem tem qualquer interesse nisso.
Salomão escreveu:
“Reparei em todas as obras feitas debaixo deste Sol, e vejam, todo é vaidade e desejo vão. Eu vi debaixo do Sol que a corrida não é para os apressados e a batalha não é para os guerreiros, nem o pão é para os sábios, nem a riqueza para os de discernimento, nem os favores para os homens habilidosos, pois o tempo e o acaso vencem tudo isso.” (Eclesiastes 1:14- 9:11)
Através do livro de Eclesiastes, Salomão escreve sobre a futilidade da vida de tantas e tantas pessoas sedentas de reconhecimento num mundo que simplesmente não o dá nem tem que dar.
O que nos traz até ao ponto fulcral da história de Forrest Gump, a relação entre capacidades inatas, oportunidades na vida, sorte ou simplesmente Deus e a felicidade.
Enquanto Salomão observa o absurdo da vida ao lado da força maior do universo que faz tudo ter sentido – Deus todo-poderoso, Forrest parte do princípio que não existe nenhuma força maior nem propósito etéreo a atingir na vida, incluindo Deus, e portanto temos de ser nós a traçar o nosso próprio destino (tal como a mãe explica a Forrest no leito de morte) e a reconhecer a nossa própria insignificância no universo abraçando a vida como ela nos foi apresentada. Com as capacidades que temos, com as condições familiares, sociais e económicas que temos, com a sorte que nos coube e apelando ao Deus que quisermos.
A mãe de Forrest dá-lhe uma dica acerca da vida: “A vida é como uma caixa de chocolates, nunca se sabe o que nos vai sair.” (Traduzindo: Ninguém sabe o seu destino)
Bob Dylan escreveu: “The Answer, my friend, is Blow’in in the Wind…” (Traduzindo pelo significado: A resposta meu amigo, foi soprada com o vento…)
O que Bob Dylan provavelmente quis dizer quando escreveu esta música, foi simplesmente que não existe resposta para o sentido da vida. Apenas aqueles que completaram a viagem podem saber a resposta… porque a mereceram, ao alcançar o seu destino.
A pena que aparece logo no genérico inicial a voar ao sabor do vento e vai pousar precisamente no pé de Forrest representa simultaneamente as convicções do Tenente Dan de que todos temos um destino e a crença da mãe de Forrest de que a vida das pessoas flutuam pelo ar ao sabor da brisa. O próprio Forrest fala sobre isto na campa da Jenny quando diz: “Eu acho que são ambas as coisas. Talvez ambas possam acontecer ao mesmo tempo.”
E podem de facto, pois que a vida nada mais é do que um cocktail de erros e acasos à mistura com uma dose de decisões inteligentes.
O Bom